#ficção

ELEMENTAIS

Elementais

Ilustração maravilhosa, feita pelo talentosíssimo e melhor amigo, Guilherme Ferrari.

Parte I

            Não sei ao certo há quanto tempo cumpro essa mesma rotina. Não sei nem qual hora desperto ou a qual sou novamente recluso. Gostaria de dizer a minha idade, mas também não sei. Não sei nem se pelo o que me chamam é o meu verdadeiro nome. Mas de uma coisa eu sei, não estou sozinho aqui.

            Todos os dias recebemos ordens para nos exercitarmos em um grande salão com equipamentos altamente desenvolvidos. Depois disso, somos divididos em quatro grupos e direcionados a quatro seções distintas. No meu grupo há nove jovens. Quatro garotas e cinco garotos. Antes, éramos quinze, mas com um tempo os outros seis foram desaparecendo. Nunca tive coragem de perguntar o que aconteceu a eles, até que um dia uma garota do meu grupo, A-56, me contou que eles não haviam resistido ao treinamento.

            Somos chamados de grupo A. E o meu nome de identificação é A-21. Somos capazes de fazer coisas que mais ninguém faz. Controlamos a água. Nossa seção de treinamento é vasta e contém diversas piscinas e lagos artificiais, para podermos praticar exercícios de controle e habilidade. Alguns já conseguem criar tornados aquáticos, outros dominam a capacidade de paralisar as moléculas e transformar a água em gelo. Eu ainda não faço muito, mas ontem descobri como dobrar de tamanho seu volume.

            Em geral, não falamos muito uns com os outros, até porque não nos é permitido. Um grupo de soldados e cientistas nos vigia o tempo todo e, toda vez que abrimos a boca para conversar, somos punidos. Geralmente colocando mais obstáculos em nossos caminhos, como por exemplo, um maremoto, para que possamos nos concentrar apenas no domínio da água. Mas já houve momentos em que essas punições foram mais rígidas e sofremos com a quase perda de dois de nossos membros. O A-89 e a A-45. Eles eram bastante pacíficos e não procuravam briga com ninguém, como o grupo F costuma fazer. Entretanto, eles infringiram a regra mais requisitada por aqui. Eles se apaixonaram.  No inicio não sabíamos, até que um guarda entrou em nossa seção e:

            – Dois indivíduos deste grupo violaram nossas leis – reverberou.– Obtiveram relações inescrupulosas entre si e por isso receberão as consequências devidas. Não cultivamos novas espécies. Vocês todos ainda fazem parte do gênero Homo Sapiens e dele não devem se esquecer nunca. Deixamos inteligível que nossas intenções não é fazê-los frutos de uma nova geração. São apenas criaturas com genes modificados que estão aqui para passar por testes de resistência. Nunca sairão daqui. Nunca terão uma vida comum novamente. Nunca farão parte do mundo como cidadãos comuns. Vocês são armas letais. E por isso os lembro mais uma vez: Vocês são proibidos de sentir qualquer tipo de sentimento e atração uns pelos outros! E como punição por terem nos ofendido com esse descumprimento de ordens, seremos obrigados a implantar o microchip em qualquer um que se mostrar E.A

                   A. é sigla para Emocionalmente Ativos.

                  –Tragam os ilícitos – ordenou.

            Vários guardas seguraram A-89 e A-45. Ambos gritavam e se contorciam no ar. Tentaram até atingi-los com chicotes d’água, mas a cena toda foi rápida. Em pouco tempo já estavam deitados no chão, com os nervos pulsantes. O chip era implantado no centro do peito.

            Eu não tive reações plausíveis, a não ser me mostrar completamente apavorado. Não passávamos de meras cobaias. Não tinha um motivo mais nobre para estar aqui, a não ser sofrer testes de DNA. E o que eu ganharia com isso? Uma provável morte em breve.

            Nunca saberia o que era amar, nem ter uma família ou um trabalho. Isso já não me pertencia há muito tempo. Não me lembro muito bem da vez que fui trazido para cá. Eu ainda era uma criança. Devia ter uns cinco ou seis anos. No começo achei que era um acampamento de verão, mas quando o tempo foi se prolongando e minha consciência foi se aflorando, percebi que nunca mais voltaria para a casa. Meus pais já devem ter perdido a esperança de me encontrar, se é que algum dia tiveram. Hoje não sei dizer ao certo como era o rosto da minha mãe, mas sei que ela sorria muito quando meu pai me jogava nas alturas e gritava “campeão”.

            Após mais uma intensa sessão de treinamento, somos trazidos de volta para o grande salão, onde os aparelhos de exercício físico são substituídos por imensas mesas de comida fria e deplorável.

            Na maioria das vezes o primeiro grupo a encerrar sua seção é o grupo F. Eles são capazes de controlar o fogo. Demorei um pouco a entender o porquê eles tinham o privilégio de acabar o treinamento mais cedo, chegarem primeiro do que o resto, e ainda comer a comida enquanto está mais apetitosa e esteticamente aceitável. F-37, um cara tatuado, mandou um dos treinadores para o centro de recuperação. Ele havia queimado trinta por cento de seu corpo, mas não sofreu punições. Me explicaram que esse tipo de coisa sempre ocorria com os controladores de fogo, que perdiam com muita facilidade o controle do seu elemento. Sua seção era submetida por altas temperaturas e por isso o fogo se alastrava com mais facilidade. E assim, para que a sala consiga suportar o estrago diário do grupo F, eles sempre são liberados mais cedo.

            Os outros dois grupos restantes são os V e os T. Controlam o vento e a terra respectivamente. Para nos diferenciarmos, assim que chegamos aqui, ganhamos uma tatuagem no braço. Cada qual simboliza o elemento que iremos controlar.

F-17, uma garota ruiva que vive com um cigarro preto na boca, me olhava enquanto fingia comer a refeição. Seus olhos eram azuis e penetrantes. Confesso que fico hipnotizado por ela quando cruzamos os olhares. Não é a primeira vez que isso acontece. Também não posso dizer que somos E.A. Tudo o que sinto é uma intensa ligação a ela. F-17 aparenta ter a mesma idade que eu. Ela é um pouco mais baixa e não sorri. Algumas vezes sonho com nós dois juntos, mas quando volto para a realidade, tiro logo essa ideia da cabeça. Não quero ter um chip implantado em meu coração. Não quero me sentir menos humano do que já sou.

              Terminando de comer a refeição, fui para os corredores que levavam ao campo de descanso. Uma sala com uma espécie de tanques – em formato de tubos – de água enfileirados de um à cem. Eles são alternados, de forma que garotas e garotos fiquem lado a lado.

            Senti uma mão quente pousar em meu ombro. Olhei para trás e fiquei surpreso de quem se tratava. F-17 , com seu cigarro entre os dentes, tombou a cabeça para o lado insinuando para que fôssemos atrás de um gerador.

            Eu não disse nada. Apenas a analisei de cima a baixo. Como era linda. Um pouco magra demais, mas ainda assim bonita. Meu coração bateu mais rápido do que de costume. Obriguei-me a controlar o impulso de me aproximar dela mais do que o limite que nos impõe.

              – Não podemos ser vistos juntos, eu sei – ela falou parecendo se referir a minha tensão. – Mas prometo ser rápida. A-12 me contou que você era o único controlador de água que não estava a par da revolução.

             – Revolução?

             – Sim. Hoje à noite, quando todos forem postos para descanso.

             – Isso é loucura, como faremos isso? Eles estão em maior número!

             – Sim. Sabemos disso, mas sabemos também que somos mais fortes. Por favor, não seja contra. Todos concordaram com o plano e estão prontos.

             – Não estou sendo do contra, só não acho que vamos conseguir alguma coisa, a não ser reduzir nosso número.

             – Reduzindo ou não já estamos perdidos. Mais vale morrer tentando do que morrer como uma cobaia sem sentimento.

            Fiquei pensativo por uns instantes. F-17 fez uma expressão de súplica. Ela estava certa. Do que adiantava continuar nesse mesmo processo durante anos? Eu nunca sairia daqui mesmo. Essa era a chance de uma nova vida. Eu tinha que saber como era respirar o ar puro. A sensação de tocar o mar. A sensação de gostar…

          – E qual será o sinal? – perguntei sussurrando.

           – T-53 vai provocar um tremor nível 4.

           Arregalei os olhos. – Ele já chegou a esse nível? Soube que é o ultimo estágio e que os únicos que chegaram a ele morreram de…

          – Câncer – completou, puxou o fumo e depois o soltou. – Eu sei.

          Geralmente, nossas células não são capazes de suportar o nível avançado dos elementos. Quando eles proliferam em nossos corpos, somos submetidos a vários tratamentos de saúde para que possamos sobreviver. Quem provoca um maremoto, um terremoto, um furacão ou uma erupção tem muita sorte de continuar vivo. Quando se chega a esse estágio, os genes procuram se mutar para que você permaneça forte e saudável. Mas não é isso que os cientistas conseguiram até agora. Todos que chegaram a esse nível morreram de câncer progressivo. É uma surpresa saber que T-53 conseguiu.

            – E os cientistas sabem disso? – perguntei.

            – Não. T-53 descobriu esse dom na semana passada. Até então não sabíamos como começaríamos a rebelião, até que ele se ofereceu para dar o sinal.

            Ouvimos passos pesados vindos do corredor.  Pelo modo como ecoavam, eram os soldados com suas vestimentas de metal pesado. F-17 apertou o dedo indicador contra a boca, pedindo para que eu ficasse em silêncio e, em seguida saiu de trás do gerador.

           – O que está fazendo aí? – perguntou um dos guardas. – Não sabe que cigarros são proibidos a partir daquela linha?

            A maioria do grupo F fumava. Os enfermeiros diziam que a nicotina fazia bem para o tipo de gene instalado em seus corpos. E por motivo de segurança, para que nenhum F queimasse alguém, havia uma linha amarela entre o grande salão e o corredor de acesso à sala de descanso. Simbolizando a entrada não permitida com cigarro.

           – Desculpe. Não farei de novo.

          – Vamos – ordenou. – Está no seu horário de descanso.

          – Sim, senhor. – disse ela jogando o cigarro ao chão. O guarda fez uma cara feia, pegou-a pelo braço à força e a arrastou pelo corredor. 

           Uma fúria se alastrou em meu peito deliberadamente ao presenciar aquilo. Talvez F-17 provocasse algo muito mais forte em mim do que eu pensava.

Parte II

            Esperei os passos se distanciarem e fui em direção à sala. Os elementais já estavam sendo preparados para o descanso.  Nossas roupas eram retiradas e trocadas por faixas que cobriam nossas partes íntimas.  Depois disso, entrávamos nos tubos, usando máscaras de oxigênio, e sofríamos jatos a vapor para a limpeza corporal. Quando o processo terminava, uma água violeta era liberada dentro dos tubos, através de válvulas, enchendo-o até o topo. Fios, com terminações circulares, se conectavam em nosso corpo. Um no peito, dois nas têmporas, um na jugular, um na coxa e outro na mão esquerda.

            Tínhamos apenas três minutos para ficarmos sóbrios. Após esse tempo, nosso corpo recebia Salinonalina. Uma droga para dormirmos.  Isso significava que T-53, iria agir em pouco tempo. Ninguém podia fechar os olhos.

            Eu tinha que estar atento ao sinal e tentar agitar o máximo possível para dobrar o tamanho da água e quebrar o vidro do tanque.

              Eu tenho que conseguir, eu tenho que conseguir, eu tenho que con…

             A Salinonalina estava fazendo efeito, quando de repente um tremor, o líquido violeta a minha frente vibrando, os cientistas procurando a direção do autor, pessoas correndo, uma rachadura no chão se formando e tubos de água caindo no chão. Meu tubo caindo no chão.

              A droga estava penetrando em minhas veias. Não sabia por quanto tempo iria me manter acordado. Fechei os olhos com força, depois os arregalei. Procurei levar os impulsos vibratórios que o elemento água me provocava até o cérebro. Meus dedos se contorciam quando a controlava. O líquido violeta tomou proporções esquisitas à minha frente. Não soube discernir o que era real e o que estava sendo provocado pela droga.

               A água dobrando de tamanho. Aumentando e me sufocando dentro do tubo. Meu corpo estava sendo comprimido. Se o tanque não explodisse naquele momento, era provável que eu explodisse em seu lugar.

               Eu queria sair dali. Queria o sorriso da minha mãe de volta. O meu pai me chamando de campeão. Queria uma vida de verdade e não ter ninguém que a controlasse.

                Mesmo sentindo dor, não conseguia parar. Minha máscara de oxigênio se comprimiu, a ponto de me fazer perder a capacidade de respirar dentro do tanque.

              Uma lembrança vaga foi buscada nas profundezas da minha limitada mente.

             – Mãe, eu tenho medo do escuro – disse um garotinho com os mesmos olhos azuis que os meus.

             – Não tenha, querido. Estou aqui com você. E estarei para sempre.

             A água se expandiu para fora do tubo. Meus braços se esticaram, como os de Cristo. Cacos de vidro maciço voaram pelos ares. Tudo a minha volta estava um caos. Elementais caídos e sangrando no chão. Outros lutando contra os guardas. Os controladores de água, rebatiam o líquido violeta da sala contra os soldados que os atacavam. Os do grupo F faziam dragões de fogo até a sala de controle acima de nós, onde alguns cientistas costumavam nos observar.

            Vários elementais correram para além dos corredores. Deviam estar indo à procura da saída, ou às seções, onde encontrariam fontes de elementos para controlarem.

             Um guarda me surpreendeu por trás, me fazendo cair de joelhos. Ele prendeu minhas mãos e retirou uma agulha sedativa do bolso, quando uma garota do grupo V, enviou correntes de vento forte em nossa direção. O guarda voou longe. Ela me estendeu a mão e me ajudou a levantar.

             – Vamos, precisamos sair daqui! –ordenou.

             Vários do grupo T retiravam pedaços de metal das máquinas e os lançavam no exército de guardas que aumentava progressivamente.

             – Para onde vamos? – perguntei.

             – Encontrar a saída.

              A impulsiva rebelião não tinha sido bem planejada. Tínhamos tanta sede de sair daquele inferno, que mal pensamos como.

             – A propósito sou V-99 – disse a garota loira.

             – Eu sou A-21.

             – Ótimo, um vento e um água. Quando chegarmos a sua seção, podemos criar um tufão  juntos e danificar algumas máquinas daqui. A intenção é desestabilizá-los.

             – Somos capazes de fazer isso?

             – Sim. Eu consegui entrar na sala de arquivo e achar alguns relatórios que informavam basicamente isso.

            Dois guardas nos surpreenderam com armas. Sem proteções, V-99 apertou minha mão. Ela também estava apavorada.

            – Abaixem-se! – uma voz gritou atrás de nós.

            O chão debaixo dos soldados se abriu e ambos afundaram. Contudo, antes que caíssem, dispararam suas armas e V-99 foi atingida. Um garoto do grupo T, correu até nós. Eu sabia quem era ele. Seu tubo de descanso ficava à frente do meu. T-62, era o seu nome.

           – V-99! – gritei. A bala havia acertado sua coxa. – Consegue se mover?

            Ela fez que sim com a cabeça.

             Levantei-a do chão e T-62 também nos ajudou.

             – Sabe para onde podemos ir? – perguntei.

             – Tem um túnel subterrâneo debaixo da seção dos F. É por lá que a fumaça dos treinos é liberada. Todos estão indo para lá.

            Então corremos naquela direção. No meio do caminho, V-99 parou para recuperar o fôlego. Ela perdia muito sangue.

           – Vamos, eu te carrego – sugeri.

           – Não, A. Vocês dois têm que ir. Têm que sobreviver. Não posso impedir isso.

           – Não! Vamos sair dessa todos juntos, tá legal? – me aproximei pronto para carregá-la, mas ela recusou.

           – Por favor, vão – insistiu – Só vou atrasá-los ainda mais. Vão!

           T-62 olhou para o lado dando a entender que ele concordava com ela, mas não queria se pronunciar.

            – Eu posso salvar a gente – tentei.

            –Vão! – ela mandou uma rajada de vento que nos empurrou para longe.

            T-62 puxou o meu braço, mas me desvencilhei.

             – Não temos muito tempo, cara – falou. –Precisamos ir agora se quisermos sobreviver. Ela fez uma escolha, por favor, respeite-a.

               Um nó se formou em minha garganta e então me levantei. Continuamos a correr rumo à seção dos F. Chegando lá, as chamas altas tomavam conta do local. Havia soldados queimados espalhados pelo chão e elementais atingidos à beira da morte. A guerra ainda se alastrava, assim como o fogo, nos impedindo de prosseguir até o túnel.

                Mais guardas vieram nos atacar e T-62 lançou placas de metal em seus rostos. Procurei por todos os cantos, mas nada de água. Tudo o que havia eram chamas e metal.

               Se ao menos houvesse o meu elemento por perto. Pensei.

                Então recorri a seção dos A, que era de frente para essa. Eu podia ir até lá e tentar diminuir o fogo com a água. Assim, teríamos passagem para chegar até o túnel subterrâneo. Porém, sabia que não conseguiria sozinho. Mas também não podia ficar parado enquanto todos lutavam.

                 – Preciso ir até minha seção – falei.

                 – Não, você vai morrer se for até lá. – T-62 segurou meu pulso.

                 – Preciso buscar água para podermos chegar ao túnel! Me encobre até lá! Tente manter os guardas longe.

                 T-62 assentiu meio relutante.

                 Dei meia volta e corri até a seção A. As piscinas estavam sem água e cheia de cadáveres. Vários A mortos, para ser mais exato. A armada já havia encontrado maneiras eficazes de nos reprimir.

                Droga, isso significava que eles haviam pensado o mesmo que eu e haviam caído numa…

                – Ora. Se não é mais uma sardinha prestes a ser enlatada – um homem de meia idade de cabelos grisalhos falou sorrindo. – Não deviam ter sido desobedientes.

                Emboscada.

             – Não devia ter nos impedido de viver – retorqui.

             – Eu tenho o de Deus. Eu dou a vida a vocês, assim como as tiro.

             – Percebe que você é só mais um monstro que criou.

             – Não os considero monstros, meu caro. Vocês são as criaturas mais lindas que já vi. Pena que não posso mostrá-los ao mundo. Não agora que recentemente descobri que não possuem racionalidade.

             Ele apontou uma arma para mim.

            – Não devia sair por aí achando que é um deus – gritei grave.

            – Sabe o que sua mãe me disse? – perguntou cético. Cerrei os pulsos. – Disse que não se importaria em se livrar de você. Não foi à toa que fui até sua casa buscá-lo sem problema algum.

            – Cala a boca, seu desgraçado! Você não sabe do que está falando.

            – Ela concordou numa boa, contanto que nunca mais o visse – gargalhou.

            Todo o meu corpo estremeceu de ira, ao som de sua risada.

           – Mas não se preocupe – continuou. – Não vou matá-lo. Você tem se mostrado muito saudável para atingir os níveis que quero. Quando chegar lá, será uma arma biológica e tanto. Quem sabe até poderei vendê-lo para os EUA?

           – Vá à merda!

           – Não haverá país que perderá uma guerra quando vocês estiverem de fato prontos. Mas por enquanto são só fetos. Fetos mal formados.

           Meus olhos se fecharam com força. Os impulsos que o elemento me causava fizeram perder o controle novamente. O homem, que eu não tinha a menor ideia do nome, começou a gemer de dor. Quando tornei a abrir os olhos minha mão estava erguida em sua direção e ele se contorcia todo.

          Eu… Eu… Eu podia controlar a água de seu corpo?

          – Está vendo – disse ele com dificuldade – Você é bem forte, criatura. É uma arma letal. Jamais poderá viver tranquilo sabendo disso.

           Apertei-o ainda mais e ele fez uma careta de dor.

           – Sua mãe nunca vai aceitá-lo de volta. Olhe bem para você. Aposto que nem se lembra de qual é o seu verdadeiro nome.

           – Você, não sabe absolutamente nada sobre mim! – fiz o volume da água de seu corpo dobrar de tamanho. O homem sentiu o desconforto instantaneamente.

          – Se você diz… – disse com dificuldade. – Max.

            Seu corpo se estourou com a pressão de dentro para fora que eu lhe provoquei.  Dei alguns passos para trás e levei à mão a cabeça, que latejava bastante.

          – Agora, você precisa dormir– disse mamãe sussurrando em meu ouvido. Meu lindo, Max.

          Max… Maximiliano. Esse era o meu verdadeiro nome. Jamais voltaria a equecer.

          Corri até a seção dos F. Nem sinal de T-62. Será que havia morrido? Tudo estava em chamas. Alguns guardas vieram em minha direção. Mandei-os longe, com o novo poder que descobri possuir. Elementais sofriam com a alta temperatura da seção procurando pela saída enlouquecidos.

           Decidi não olhar para os que estavam ficando. Não queria guardar seus rostos de dor e sofrimento. V-99 , T-62 e F-17. Seriam eles os únicos aos quais me permitiria recordar.

            Usei um soldado morto como escudo, erguendo-o no ar. As cortinas de fogo o acertavam enquanto me davam passagem. Encontrei o tubo subterrâneo aberto e pulei lá dentro. Caí de mal jeito num chão viscoso e engatinhei até correr. Ouvi vozes atrás de mim, mas não me virei para trás.  Apenas corria e ganhava mais velocidade.

             Após uma eternidade na escuridão e correndo sem pausa para retomar o fôlego, senti uma brisa tocar o meu rosto. Eu estava próximo do sonho que em breve viraria realidade. Eu já podia sentir o cheiro das árvores, da grama, da terra fofa e das pedras. Mas outro cheiro se fundia a esse. Cadáveres de soldados, cientistas e elementais se espalhavam pelo túnel úmido. O odor de sangue lapidava meu olfato.

             Uma luz prata iluminou meu caminho e a silhueta de um grande círculo que representava a passagem para a liberdade. Atravessei-o e caí de joelhos nas pedras que se sucediam aos meus pés descalços. Uma água clara batia contra mim. Era um córrego. A floresta se estendia pela a vastidão da noite logo à frente e a lua brilhava ao céu, junto às chamas que incendiavam o laboratório secreto do governo, acima das montanhas. Bebi um pouco da água e lavei o rosto. Levantei-me às pressas e continuei o trajeto, embora não importasse para onde me levava.

            – Ei! A-21! – uma voz familiar gritou às minhas costas. Virei-me imediatamente e não acreditei no que vi. Era F-17 carregando V-99 nos ombros. – Nos ajude! Por favor.

            Sem pensar, concordei e fui de encontro as duas. A perna de V-99 estava estancada com as faixas que antes cobriam os seios de F-17. Corei e desviei os olhos.

            – Ela precisa de ajuda – falou F-17.

            Senti-me muito mal por ter deixado V-99 para trás e ainda ver que F-17, com muito menos força do que eu, trouxera a garota, na tentativa de salvar ambas.

            – Me desculpa – sussurrei no ouvido de V-99 que me deu um sorriso de dor.

            –Vamos para a floresta! – ordenou F-17.

             Assenti e carreguei V-99. Encontramos dificuldades em achar um caminho por entre as árvores tortuosas, mas não paramos de correr até achar um lugar longe o bastante para cuidarmos da elemental ferida.

            Após umas duas clareiras, achamos um lugar mais seguro e calmo para descansarmos. E nesse meio tempo, uma ideia maluca me correu pela mente.

             E se eu tentasse controlar o sangue que vazava da perna de V-99? Talvez assim, desse mais tempo para pensarmos em algo melhor.

          – Vou tentar uma coisa – falei e F-17 arqueou as sobrancelhas. – Precisam confiar em mim.

          Mas antes que eu iniciasse a garota do fogo se virou bruscamente para trás, abriu um isqueiro que trazia consigo e mandou um dragão de fogo por entre as folhagens dos arbustos.

          – Quem está aí? – perguntou.

         Um muro de pedra, antes inexistente, se desmoronou assim que o fogo bateu e se apagou. Era T-62.

          – Sinto muito – pediu ele. – Não quis assustá-los. Estava aqui perto quando ouvi as vozes, então vim para cá mais do que depressa me juntar a vocês.

           Fiquei bastante surpreso e muito feliz por estar enganado quanto à suposta morte dos três.

         – Junte-se, mas não atrapalhe – falou F-17 um pouco irritada. – A-21 vai tentar uma coisa nova.

         T-62 assentiu e se aproximou. Mandei-lhe um sorriso de “você está vivo, cara”. Ele retribuiu com um aceno de cabeça. E em seguida, fechei os olhos e me concentrei na perna de V-99. T-62 se ajoelhou a meu lado e colocou a mão ao lado da minha.

          – Talvez eu possa retirar a bala – sugeriu e concordei sem hesitar.

          Tornei a me concentrar e a conter o líquido perdido. V-99 gemeu de dor algum tempo e depois parou. Abri os olhos para me certificar de que ela ainda respirava. Aliviado por ela ainda estar, retomei de onde havia parado.

           Deve estar funcionando.

             Mexi as mãos de um lado para o outro, tentando drenar o sangue. Repeti o movimento centenas de vezes até que notei que V-99 dormia e respirava tranquilamente. T-62 abriu a mão e me mostrou a bala de ferro que retirara da perna dela. F-17 sorria contente para nós dois. Encostei-me num tronco e fechei os olhos outra vez. Estava cansado e precisava recompor as forças. O efeito da Salinonalina atingiria meu sangue assim que me repousasse por completo.

           – Se não fizermos barulho, ninguém nos achará até que acordemos – falou T-62 erguendo muros do chão à nossa volta. – Mas precisamos sair daqui antes do amanhecer.

            Ainda tínhamos uma longa jornada pela frente. Precisávamos fugir e ir de encontro à vida que tanto nos aguardava. Não seria fácil, eu sabia disso. Mas ao menos, quem tomava as rédeas de minhas decisões e emoções, agora, era eu.

Esse é um texto antigo, mas que resolvi revivê-lo por conta da linda ilustração que ele ganhou. Obrigada, Gui Ferrari pela arte e a vocês, por terem lido. Espero que tenham gostado! ❤

Conto: Sob a Escuridão

Sob a Escuridão

Art Thabs

O escuro se alastra pelo duto até que há uns quinze metros uma bola de fogo ilumina a passagem. As paredes são de rocha e terra socada. O ar que circula é abafado e sinto dificuldades para inspirar. Mas é tudo o que temos. A escuridão é o que nos restou após sermos expulsos de nossa própria casa.

As lembranças daquele dia permanecem nítidas, intocáveis, assombrando minha mente para que eu nunca mais me esqueça do meu maior pesadelo. Lembro que era quase noite e ainda estava no trabalho. O céu era nebuloso, como se estivesse para chover. As nuvens ganharam tons de roxo e vermelho e se enroscavam como se fossem formar furacões, porém não tão baixas o bastante. As árvores chacoalhavam tanto que pareciam que a qualquer momento seriam arrancadas. Todos especularam que uma tempestade estivesse por vir, por mais que não fosse época de temporais.

Levantei da minha habitual mesa para pegar um pouco de café. O faxineiro, parado em frente à televisão com uma vassoura nas mãos, era um dos poucos funcionários que permaneciam no escritório. O noticiário mostrava mais um ataque provocado naqueles lados do Oriente Médio. Uma câmera amadora de celular filmava a cena de uma bomba explodindo uma vila. Beberiquei um gole orando silenciosamente para as vítimas do atentado e voltei ao meu trabalho. Faltava alguns relatórios para terminar até o prazo daquele mesmo dia e eu mal esperava para voltar para casa. Meu celular tocou e era uma mensagem da minha mãe dizendo que havia preparado costela ao molho de churrasco para o jantar. Fazia uma semana que ela estava na capital me visitando e me bateu um arrependimento por não estar fazendo companhia a ela.

Aconcheguei-me na cadeira quando um trovão estrondoso ressoou através da janela. Despertei no mesmo momento e senti o meu peito disparar em batimentos. Um relâmpago azulado atordoava o céu em cores. Observava com espanto o show de pirotecnia natural até que notei que já havia se passado consideravelmente muito tempo para o efeito persistir. E então, toda a energia da casa, ou melhor dizendo, de toda a redondeza foi cortada. Meus colegas de setor resmungaram imediatamente, nem todos tiveram a mesma sorte que eu de salvar os arquivos antecipadamente.

Nunca gostei do escuro. Ser pega de surpresa por um corte de energia me deixava desorientada. “Hora de ir embora”, pensei. Tateei minhas coisas no escuro e acendi o celular para iluminar o caminho. O resto do pessoal fazia o mesmo. Estávamos prontos para sair, quando de repente o chão começou a tremer. Recordo-me de ter visto a expressão de temor das pessoas iluminadas pelo visor dos aparelhos.  O chão tremia e entrei em pânico, mesmo me forçando a contê-lo, e engatinhei para debaixo de uma mesa. É o certo a se fazer para se precaver de um terremoto, certo? Errado. Porque não era um terremoto.

O som de passos pesados acompanhado por gritos masculinos vinha de alguma direção que não soube identificar qual. Os gritos se estacaram conforme o tremor do chão. Mantive em meu lugar, quieta, imóvel, sem saber o que estava acontecendo. E então, um som que se assemelhava a um inseto farfalhando latejou. Primeiro baixo, em seguida se intensificando. Cada vez mais grave. Procurei por algum objeto cortante para me defender e comecei a tremer ao notar o quanto estava despreparada. O mais próximo de cortante que havia era o jarro de vidro em cima da mesa. 

Uma silhueta corpulenta e esquia se formou na entrada. O barulho de inseto, ao contrário do que pensei ser coisa da minha mente, ficou mais real. A luz da lua que nunca foi tão perceptível quanto agora, o iluminou. Minha respiração se tornou pesada e tapei minha boca. Cravei meus dedos em meus próprios braços, a procura de uma salvação. O que estava a minha frente não era humano. Era um demônio. Eu… eu não sabia o que era. Ele possuía membranas, espinhos e uma pele espessa. Seus olhos eram duas bolas de cristais que apontavam para várias direções. Ele não tinha nariz, por outro lado, tinha muitos dentes. Uma extensa calda partia de seu cóccix e serpenteava por cima dos ombros. 

A criatura mirou a cabeça para o teto e expeliu um grito gutural. Nunca vi nada parecido antes, nem em filmes. Lágrimas brotaram de meus olhos e não soube diferenciar se era pesadelo ou realidade. Uma luz azul cobriu as janelas da casa e agora estávamos desprotegidas sem a escuridão. Turbinas e helicópteros vinham lá de fora. 

O bicho adentrou a sala, vindo em minha direção, e parecia inspecionar o local com um faro específico. Mais cedo possível ele me descobriria. Porém, alguém aproveitando a brecha da porta desocupada, levantou de baixo da mesa no outro canto e disparou uma corrida. Distraído do primeiro objetivo, ele se moveu como um dinossauro e parou uns cinco metros de mim, novamente no batente da entrada. Por um segundo pensei que não tinha intenção de ferir alguém, entretanto curiosamente de sua calda partiu um raio de luz em direção certeira ao homem que tentava fugir. Aproveitei para sair do meu posto e correr até uma porta adicional que me levaria a continuação do setor. Mas antes, fui hipnotizada pelo o que vi.

O raio atingiu o homem, paralisando o seu corpo. Imagino que o último movimento que teve foi o que fez com os olhos, porque em seguida ele todo fora desintegrado em farelos. O monstro se voltou para mim soberano, os olhos da besta me estudavam, como se fosse eu a estranha a invadir a sua casa. Eu não sentia os dedos dos pés e minha pele se arrepiava ao ponto de doer. Ele me apontou sua calda esboçando um próximo raio e não tive tempo nem de gritar, de chorar ou sequer piscar, apenas abri a porta e uma força maior impulsionou o meu corpo para que corresse para longe.

Um milhão de perguntas se apoderaram a minha mente, mas a única resposta que eu esperava naquele instante era a saída daquele lugar. Trombei em vários objetos, porém não interrompi o caminho. Subi as escadas e os passos pesados vinham logo atrás. Estavam possessos, eu não teria chance. Um novo raio de luz se preparava as minhas costas e ao terminar as escadas, ele atingiu a ponta do corrimão que logo desapareceu. Corri percebendo que não dava nem para me trancar em nenhuma das salas. Um segundo perdido e seria o meu fim. Então quando vi a janela no final do corredor, não pensei, apenas me joguei com toda a força do corpo para atravessá-la.  Em queda livre, vi um terceiro raio de luz atravessando a janela quebrada, perpendicular ao meu corpo.

Choquei contra o gramado recém aparado e tive dificuldades de respirar. Contudo, consegui me levantar e por sorte, ou milagre genético, nada estava fora do lugar. O céu estava dominado por aeronaves de todos os tamanhos. Humanas e não humanas. Minha mente não distinguia o que era certo e o que não era. O exército estava nas ruas. A população desnorteada. A luz azul que invadiu a casa pertencia a um objeto não identificado que pairava em cima do bairro.  Até que enfim entendi. Tratava-se de uma guerra e estávamos em desvantagem. Continuei a minha fuga até os dias de hoje e nunca mais encontrei a minha mãe. Minha casa, minha família, minha vida, tudo ficou para trás.

Há oito anos, o planeta Terra foi tomado por seres altamente desenvolvidos, dos quais nos arriscamos em chamá-los de Iluminados. Fomos sentenciados a morte, ao esquecimento. O mundo que conhecíamos, não existe mais. Tudo o que sabemos é que não nos querem como principal espécie habitante e que estão destruindo as cidades e reconstruindo habitats naturais. Alguns teóricos creem que a raça alienígena veio a fim de exterminar a raça humana por esta não ser considerada civilizada. Supõem que as guerras e a destruição do planeta motivaram sua vinda. Outros acreditam que a razão principal de remontarem os habitats de origem é porque é essencial para a sobrevivência de sua espécie.

Grupos saem em expedições camuflados para investigarem sua real história. Ao longo dos anos reunimos uma quantidade significativa de materiais para o seu estudo. Atualmente estamos aprendendo sobre o seu linguajar.  Somos divididos em seções, pessoas de tudo quanto é etnia estão juntas. Nos comunicamos através da antiga língua internacional. Cada um contribuindo com habilidades que adquiriram ao longo da vida. E mesmo que não seja a nossa especialidade, não podemos questionar. Dou suporte técnico as brocas que usamos para chegar a superfície. Nunca fiz algo parecido antes, foi a força de lutar por minha raça que me fez virar com o que tinha. 

Sou sobrevivente do maior ataque que os humanos já enfrentou e não me orgulho disso. A batalha foi desigual e precisamente rápida, pois não possuíamos recursos à altura para combatê-los. Fomos pegos de surpresa. Muitos morreram sem nem sequer ter tido a chance de saber o que estava acontecendo. Morreram à deriva do silêncio, sem protesto ou escolha. Vi crianças serem dizimadas sem piedade a minha frente e não pude fazer nada. Sem sombra de dúvidas o maior genocídio da história da humanidade. E ao que parece o último. Não sei por quanto tempo mais sobreviveremos sob estas cidades subterrâneas. A escuridão, que um dia me assolou tanto, agora é a nossa sobrevivência. Mas a pergunta que todos fazem é, até quando?